A vida digital
e a nostalgia de um papel
Acho que estou mesmo ficando velha.
Nem trinta e seis eu fiz ainda, mas talvez eu pudesse ser considerada ultrapassada, não, nem vintage, é velha mesmo. Velha do século passado.
Recebi um convite de casamento. Veio pelo whatsapp, assim pá pum, sem mais delongas. Sim, com um texto bonito, bem elaborado e carinhoso, lettering, cores, design, mas um texto para todos. Ctrl C Ctrl V. Um convite sem ninguém tocando minha campainha, sentando na mesa da minha cozinha pra contar sobre os preparativos, as expectativas, enquanto toma um café.
Uma mensagem sem calor, apesar de linda, amiga do meio ambiente, zero poluição com impressões de papel. Um convite muito bonito, de fato, mas imagina só no papel.
Há quem diga que é assim mesmo, imagina Fernanda, hoje é tudo digital mesmo, ninguém mais liga de receber convite de aniversário no whatsapp, para de frescura.
É pode ser, mas já percebi que os poucos convites físicos que meus filhos receberam na agenda escolar, foi motivo de euforia quando chegavam em casa, pra me contar do aniversário da amiga. Colocavam orgulhosos o convite na geladeira, pra todo mundo saber que na quinta-feira seria aniversário da Maria Luiza.
Num outro dia recebi outro convite. Chá de bebê. Uma arte linda com os direcionamentos da festa. Fofo. Me agradou. Até que vi que tinha lista de presentes. Digital.
Aqui devo fazer este parênteses, que vai ser na verdade um parágrafo inteiro. Eu tenho três filhos. Quando penso no aniversário deles, sempre imagino que se tudo aquilo que eles ganham de presente viesse em dinheiro, puxa como eu ia poder aproveitar mais. Como seria melhor se eu pudesse direcionar e comprar aquilo que fosse mais proveitoso, mais útil, mais interessante pro momento. Sim eu sei disso, sempre penso nisso. Mas eu não faço isso. E vou dizer porque voltando à lista de presentes do chá de bebê.
Pois bem. Há uma lista de presentes do chá de bebê. Eu poderia muito bem ir lá comprar um presente e ponto final. No dia iria na festa, celebraria, tiraria fotos e fim.
Mas não. Primeiro pensei que é muito triste chegar de mãos abanando. Eu gosto de embrulhar o presente, gosto de fazer um pequeno cartão. Gosto de impregnar meu amor e carinho no ato de presentear.
Ok, vida prática Fernanda, ora, ora, logo você, que vive querendo praticidade, facilidade por conta do seu dia corrido, querendo isso agora?
Pois é, logo eu. Euzinha que venho percebendo o tamanho do estrago que é viver nesse 220. Acelerada e acelerando.
Resolvi comprar o presente digital, afinal, quero facilitar a vida do papai e da mamãe que disseram que assim era mais fácil. Mas confesso que comprei assim com um ar meio borocoxô, porque não poderei fazer um cartão. Nem embrulhar o presente com o papel pardo e fazer um desenho nele.
E mais do que isso, o bebê não terá um macacão, um babador, uma naninha que "foi a tia fê quem deu". Não.
E se tem algo legal é isso. Quando eu casei já era comum as pessoas darem algo na lista de presentes de determinada loja. Mas eu ganhei um cobertor de uma tia, que aliás tenho até hoje e sempre me lembro dela quando eu o uso. Eu adoro ver fotos antigas e dizer "nossa filha, lembra dessa blusa de moranguinhos? Foi a tia Dani que te deu"; "e esse vestido azul com estampa de limões? foi a tia Marta quem te deu".
É uma delícia ver o carinho das pessoas ganhar matéria na nossa vida. É uma delícia se fazer presente na vida do outro através (também, mas não só!) dos presentes que você dá.
E voltando ao parênteses que eu fiz lá em cima, sobre pensar que eu poderia receber os presentes dos meus filhos em dinheiro e fazer bom proveito disso. Eu nunca fiz isso, sabe porquê? Porque eu deixo de proporcionar pra eles a abundância que eles podem ter. Eu deixo de proporcionar pegar cada pacote, ler o nome do convidado e dizer "mamãe, olha isso que o Bruno me deu". É filho, foi seu amigo quem te deu!
Talvez eu esteja ultrapassada mesmo.



Também sou ultrapassada... adoro embrulhar um presente com carinho, escrever um cartão, talvez até feito por mim! Mas sabe o que vejo? Que quase ninguém mais se importa, e venho notando isso já faz algum tempo, infelizmente. Porém, eu não desisto do mundo que eu conheci.
"Nem embrulhar o presente com o papel pardo e fazer um desenho nele.". Agora eu quero :)